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O Blog da Ervilha

Um blog sobre tudo o que me apetece.

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A morte (lenta e dolorosa)

Poderia falar na forma como todos morremos um pouco, todos os dias, quando nos deixamos consumir por esta sociedade (que se rege por princípios exclusivamente monetários). Mas preciso de falar da morte, a morte física; aquela que nos faz desaparecer para sempre da face do planeta, que nos arranca da vida e nos atira para o esquecimento.

Nos últimos anos, mais especificamente nos últimos três anos, deparei-me com três situações de morte lenta e dolorosa. Mais próximas ou afastadas, são sempre circunstâncias que nos fazem ponderar muitas coisas na vida. Vermos alguém morrer  aos poucos, todos os dias; sentirmos alguém desaparecer a cada encontro até ao desaparecimento final. Isto deixa marcas, marcas duras; pesadelos de olhos abertos e ansiedade, ao temer passar pelo mesmo. 

A glorificação da luta, hoje em dia todos ouvimos falar dos heróis que lutam para sobreviver, contra as mais diversas adversidades da vida. Considero que é louvável e necessário passar esta mensagem. Mas não será necessária muita mais coragem para admitir: "não aguento mais, só quero que me deixem morrer"? Quantas vezes vi isto no olhar de quem não aguenta mais, simplesmente, sobreviver, porque há muito deixou de viver. Aquela tristeza infinita que paira no olhar, a impossibilidade de sorrir e a certeza de que o fim está próximo.

Claro que todos sabemos que vamos morrer - até porque só duas coisas certas na vida: a morte e os impostos - mas na realidade ninguém deseja ter uma morte lenta e dolorosa (hoje em dia mais dor emocional que física, felizmente). Nenhum de nós deseja morrer um pouco todos os dias,  sujeitar todos os que nos rodeiam a morrer connosco a cada dia, enquanto deixamos de ser quem éramos. 

Ao longo do caminho para morte, por doença prolongada, notei que se morre aos poucos. A cada dia há qualquer perda a registar, há qualquer debilidade que se acentua e há um momento em que a pessoa já lá não está, mas o corpo permanece em funcionamento. É nesse momento, que me pergunto: Que sentido tem isto tudo? e que me respondo: Nenhum.

É difícil, para quem não vê ou experiencia algo do género, entender que não se deseja a morte de alguém, apenas se deseja que alguém querido pare de sofrer. Um sofrimento desnecessário, como um desfecho marcado.

O processo de luto de uma morte deste género é, penso eu, ainda mais doloroso, porque há imagens e cheiros que não se esquecem. A debilidade do corpo, as feridas e o cheiro, o cheiro é diferente.

A sensação de pode ser a última vez que te vejo, cada vez que lhe viramos as costas, é efetiva. O sabermos que viramos as costas a alguém que sofre é contra a nossa natureza de proteger e ajudar, é extremamente doloroso.

Depois de tudo o vi e vivi, neste sentido, ponderei: Que sentido faz alongar a vida da matéria, quando o que faz de nós pessoas já não existe? Penso que nenhum.

Sou pelas pessoas, preocupa-me o sofrimento, não tenho contas a prestar a nenhum Deus e isso não me tolda a visão. Ainda que perceba o consolo da vida eterna, penso que é isto o que temos e teremos para sempre. Terminar tudo o que temos sem dignidade não é justo, nem compreensível para uma mente racional e pragmática. Talvez por isso, de todos os sons o que mais odeio é som da terra a bater no caixão, aquela primeira mão de terra a abater na madeira oca; simplesmente o som mais horrível de todos. É esse som que revela a insignificância da nossa existência e ao mesmo tempo nos recorda a importância que cada dia tem, enquanto único e irrepetível. 

Aqui deixo um excerto do um poema que adoro. Reduz-nos à nossa condição humana, é sempre mais difícil admitir fragilidades, do que arrotar as nossas façanhas.

 

"E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

 

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"

(Álvaro de Campos)

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